Crítica l Deus Salve o Rei e os personagens que dançam conforme a música


Dilvulgação/TV Globo

Atual novela das 19h da Rede Globo, Deus Salve o Rei, está longe de ser um fracasso colossal da faixa. A média de audiência no Ibope da Grande SP até agora, na casa dos 25 pontos, não chega a ser ruim, mas está abaixo do que a antecessora, Pega Pega, marcava com o mesmo número de capítulos. Além disso, a trama de Daniel Adjafre repercute pouco: quando desperta conversas nas redes sociais, geralmente são sobre críticas à produção, como ao equívoco na postura de Bruna Marquezine no início da novela (felizmente já corrigido).

A verdade é que Deus Salve o Rei, anunciada como uma super produção, prometeu muito e entregou pouco. A história central se mostrou frágil e insuficiente para segurar a novela por pelo menos seis meses. Além disso, a novela sofre com personagens que mudam de personalidade bruscamente, de acordo com as necessidades do roteiro.

Os protagonistas, Afonso (Rômulo Estrela) e Amália (Marina Ruy Barbosa), até tem química e despertaram logo a simpatia nos telespectadores. No entanto, os vários equívocos na condução do relacionamento dos dois acabou por tornar difícil a torcida pelo casal. Na falta de uma vilã forte – a Catarina, de Marquezine, ainda estava vivendo à sombra do pai, o rei Augusto (Marco Nanini) – Amália se tornou a persona non grata da história: ficou à cargo da mocinha despertar os empecilhos para atrapalhar a felicidade dela ao lado de Afonso e impedir o envolvimento dele nas questões políticas dos reinos de Artena e Montemor – sem esquecer que Afonso largou a posição de imperador e entregou o reino para as mãos de alguém despreparado por causa também de Amália. Uma das piores tramas foi, sem dúvida, o feitiço jogado por Brice (Bia Arantes) na plebeia e que durou semanas.

Agora, ao perceber a antipatia contra a personagem alimentada no público, Amália se transformou repentinamente: em poucos capítulos, passou a apoiar Afonso na luta pelo bem do povo de Montemor e virou a líder de um movimento dos plebeus contra a cobrança do novo imposto determinada pelo rei Rodolfo (Johnny Massaro). De quem se mostrava alheia aos problemas do povo para uma verdadeira sindicalista em um estalar de dedos.

Rodolfo, aliás, é outro exemplo de um bom personagem que sofre com a má condução: de ingênuo, bobo e atrapalhado – responsável pela maior parte das cenas cômicas no início da história – se transformou em um monarca ambicioso, capaz de tramar uma guerra contra o reino vizinho e ceifar vidas de seu próprio povo para se casar com Catarina. Não esquecendo, é claro, de ter mantido seu próprio irmão preso e quase o mandado à forca. Agora, segundo informações do jornal Extra e do portal Notícias da TV, como parte das alterações nos capítulos previstos para ir ao ar em abril, Rodolfo voltará a ter as características mais leves em ênfase e ficará responsável pelo maior alívio cômico da história.

Em meio à personagens que trocam de personalidade ao gosto do autor, se sobressai uma das poucas que possui uma boa trajetória, apesar do pouco espaço que possui na novela: a jovem Selena (Marina Moschen). Largou o trabalho na cozinha do castelo para realizar seu sonho de entrar na Academia Militar, fazendo uma ponte entre a época medieval e os dias atuais com a questão do feminismo. Agora, Selena descobriu ser filha de uma bruxa e está aprendendo a controlar seus poderes. Mas a guerreira sofre com as mudanças de interesse amoroso até agora: de uma relação apressada com Ulisses (Giovanni de Lorenzi), para um romance que prometia bastante com Saulo (João Vithor Oliveira). Mas antes mesmo dos dois darem início a uma relação, Selena foi jogada para os braços de Tiago (Vinícius Redd). Em meio a essa indecisão, corre-se o risco da personagem despertar antipatia semelhante àquela que Amália foi alvo.

Deus Salve o Rei não é um caso perdido: a novela, que deve ficar no ar até o ínicio do segundo semestre, precisa apenas de um conflito forte, um antagonista que movimente a história – Catarina já mostrou ter potencial pra isso nos  capítulos recentemente exibidos (inclusive pra formar um triângulo amoroso) -, e personagens com trajetórias e personalidades bem definidas. Não se pode simplesmente plantar ações de qualquer forma ao gosto da audiência: é incoerente e o público, que não deve ser subestimado, percebe.

Gaspar Neto é estudante de Jornalismo, apaixonado por televisão desde a infância e colunista do portal Comenta TV. 

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